Quinta-feira, Março 08, 2012

Falar, enfim, do fim, é dolorido.

Por mais que nos preparemos para um fim, para o encerramento de uma etapa, me parece que nunca estamos preparados para a morte.

A morte, como imaginamos antes, é a ausência completa e findada de alguém, de alguma coisa. Mas mesmo que nos imaginemos em prantos olhando para aquele canto vazio, não estamos preparados. Porque o canto fica realmente vazio, mas o coração não. E cada detalhe da casa nos faz lembrar aquele que deu-se por fim conosco. Cada foto, cada palavra que costumava dizer, cada enfeite, cada letra já tremida numa agenda velha que não temos coragem de jogar fora.

Costumamos dizer que foi para um lugar melhor. Que não era mais pra acontecer. Dizemos repetidamente frases consoladoras que não nos servem depois. Porque a morte parece ficar ali, impregnada no corpo. O que acabou realmente não tem fim. É muito mais forte que acabar. É prevalecer na memória de uma maneira que, sim, como imaginamos, nos vem em pranto e por ora, em silêncio. É todo um adaptar-se de novo, como que se começássemos a viver de novo. E começar de novo com canto vazio dá nó na garganta. É porque cabe muita coisa no nosso coração. Cabe a raiva, cabe a saudade, cabe a ausência, a falta, o amor, o desejo e cabe também a imortalidade que reduzimos a objetos, músicas ou flores. Rosas vermelhas mal brotam, as rosas rosas tem espinhos e as amarelas não machucam. São as mais bonitas. Depois murcham e morrem.

As coisas e pessoas são feitas para acabar. As histórias também. Até os girassóis tem seu fim.

Quinta-feira, Setembro 29, 2011

Tem que ser mais


Então tem que ser mais, né? É.

Tem que ser ascendente. Tem que ser extenso, mais importante, mais marcante, mais um pouco e um pouquinho ainda mais do que isso. Tem que ser maior. Tem que ser imensurável, glorioso, tangente e tangível. Intenso.

Tem que ser mais que providencial. Tem que ser improcedente.

Tem que ter mais sede, mais fome, tem que ter buraco sem fundo. Tem que ser claro, iluminado, inegável de fechar os olhos e amar almejar mais, regozijar, pleitear, in-saciar.

Tem que voar, tem que ter céu, tem que ser alto. Não pode ser caixa. Não pode ser gaiola. Não pode sufocar alma ou águia. Tem que brilhar enquanto plaina. Tem que ser leve, dócil e doce. Tem que ser gostoso.

É que tem que ser a mais, um tanto, tanto de muito. Tem que ser quase tudo.

Porque tem que ser de extrema exatidão do tamanho que não se sabe que pode expandir pra caber de dentro. Pra fora.

Tem que ter tampa, tem que ter ouvido, tem que aquecer, que resfriar, que espirrar, que provocar, que desejar, que aprofundar, imaginar, sentir e partir.

Tem que ser muito mais.

Sábado, Agosto 13, 2011

Enquanto a gente corre


É que, enquanto a gente corre, não é possível ver os pássaros. Enquanto nos colocamos como personagens da vida sem tempo, não admiramos a lua cheia amarela e escandalosa acima de nossas cabeças doloridas. São as agruras dos tempos sem tempo, dos dias que acabam antes de ter-se tempo de fazer tudo que julgava-se ter a fazer. Enquanto a gente se entrega ao ritmo interrupto de não poder controlar as ações que nos guiam, não temos trégua para receber um abraço de mão estendidas. Nos encontramos, pois então, nos apertos de mão, nos protocolos que nos dizem que não, não há tempo. Não dá para visitar o avô adoentado. Não é permitido dormir até mais tarde (o mais tarde sem horário, diga-se), não podemos admirar o sol quente que tanto incomoda nossas cabeças. Nem mesmo vivemos a temporada de estar conosco mesmo, a sós, como dizem as psicólogas da vida (nossas avós, mães, amigos, desconhecidos, livros e até mesmo as próprias psicólogas), com o nosso EU. Aquele, que sempre dizemos que somos, mas não necessariamente estamos. Enquanto a gente corre, não podemos admirar uma plantação de girassóis. Nem mesmo observar o olhar admirado dos nossos filhos, afinal, estamos com pressa.

É porque quando a gente corre, apressados pelos horários impostos por nós mesmos, com urgência da constância de fazer, deixamos um pouco de ser. É como se sobrevivêssemos à vida, ao invés de vivê-la de fato.

O metrô continua passando de minutos em minutos, o trânsito continua cheio de carros e businas, o trabalho é o mesmo, sempre com listas de pendências e ar condicionado cheio de sujeira. Os impostos sempre serão cobrados, as filas dos bancos continuam existindo, a comida esfria, a saudade da avó não desaparece. As contas continuam chegando, as nossas caixas de e-mail pipocam de spams e outros slides encaminhados. O armário continua torto, a unha do pé continua encravada.

A gente corre, meio que sem saber o porquê. A gente correio feito barata tonta enquanto p mundo... Ah, o mundo não para enquanto corremos. Assim como não para quando a gente para de correr e começamos observar. A nossa correria não faz com que o Planeta Terra produza mais água. Não impede os acidentes ferroviários com vítimas fatais. E nem mesmo equilibra as alterações da bolsa de valores da China.

Então, paremos um pouco. Correr é cansativo. Não é providencial. É circunstância do nosso entendimento do que a vida nos proporciona. O convite é caminhar até um certo lugar de cada um onde escolheremos parar, sentar e admirar. Se fosse possível parar definitivamente, diria: PARE. Porque enquanto a gente corre, a vida continua acontecendo no mesmo ritmo, que independe de tudo.

É que quando a gente corre, a vida continua dançando à nossa volta. Nós é que entramos em descompasso.

Sexta-feira, Abril 22, 2011

Gravata Borboleta

Será que vivo sem isso? Será que eu consigo viver sem este tipo de água pra respirar? Será que a minha vida se sobressairia sem a agitação e turbulência dos gritos e o estado grogue de cansaço extremo? Seria diferente? Ou eu é que sou assim, exatamente assim? Porque o que me parece agora é que tudo que eu quero é paz. Ela não está no dinheiro, eu sei. Está no sucesso ou na minha independência de ser eu? Está nas minas páginas impressas da minha gaveta? No meu verbo FUI impregnado de ESTOU em mim? Deveria já ter ido? E, se sim, para onde? Se não, como? Estes momentos tem me vindo a tona sempre, como se fosse um chamado a reagir a minha falsa serenidade diante deste todo pesado que me dói os ombros. Dói como toneladas de ar puro que só carrego e não inspiro. Dói como minha Alice presa numa caixeta de papelão, sem janelas. Medo? Fuga? Momento, euforia, graça, sublimidade, corpo, fora, dentro, ou minha posição dilacerante e retrógada de comodidade?
Peace, where is this place inside myself?

Segunda-feira, Abril 04, 2011

Fwd: JAPÃO por Monja Coen Sensei

---------- Mensagem encaminhada ----------
De: "Edmea Jorge Arantes" <edmea@samarco.com>
Data: 04/04/2011 16:39
Assunto: JAPÃO por Monja Coen Sensei
Para: "Carol Bahasi" <bahasi@gmail.com>, <anareis.consultoria@gmail.com>

JAPÃO

Por Monja Coen

 

Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês: kokoro.

 

Kokoro  ou Shin significa coração-mente-essência.

 

Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?

 

Outra palavra é gaman: aguentar, suportar.  Educação para ser capaz  de suportar dificuldades e superá-las.

 

Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo  de duas maneiras.

 

A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima.

 

A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas.

 

Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.

 

Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém.  Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área.  As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.

 

Não furaram as  filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos- mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica,  alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.

 

Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.

 

Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques.  Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam.  Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: coração de gratidão.

 

Sumimasen é outra palavra chave.  Desculpe, sinto muito, com licença. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver.  Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você, ou tocar à sua porta.  Desculpe pela minha dor, pelo minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo.  Sumimasem.

 

Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.

 

O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei.  Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.

 

Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico.  As vítimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de  resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais.

 

Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que "somos um só povo e um só país".

 

Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas.  Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em Julho próximo.

 

Aprendemos com essa tragédia  o que Buda ensinou há dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória,  nada é seguro neste mundo,  tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.

 

Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo  está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra.  O planeta tem seu próprio movimento e vida.  Estamos na superfície, na casquinha mais fina.  Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos.  O que podemos fazer é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos.  E isso já é uma tarefa e tanto.

 

Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução.

 

Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de março.

 

Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar.

 

Havia pessoas suas conhecidas na tragédia?, me perguntaram. E só posso dizer : todas.  Todas eram e são pessoas de meu conhecimento.  Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência.  Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.

 

 

Monja Coen Sensei

 

 

Monja Coen Sensei

Monja Coen Sensei é missionária oficial da tradição Soto Shu - Zen Budismo com sede no Japão e é a Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001, com sede em Pacaembu.

Iniciou seus estudos budistas no Zen Center of Los Angeles - ZCLA. Foi ordenada monja em 1983, mesmo ano em que foi para o Japão aonde permaneceu por 12 anos sendo oito dos primeiros anos no Convento Zen Budista de Nagoia, Aichi Senmon Nisodo e Tokubetsu Nisodo.

Participou de vários cursos e programas de formação para monges tendo se graduado no mestrado da tradição Soto Shu.

Retornou ao Brasil em 1995, e liderou as atividades no Templo Busshinji, bairro da Liberdade, em São Paulo, e sede da tradição Soto Shu para a América do Sul durante seis anos. Foi, em 1997, a primeira mulher e primeira pessoa de origem não japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil, por um ano.

Participa de encontros educacionais, inter religiosos e promove a Caminhada Zen, em parques públicos, com o objetivo de divulgação do princípio da não violência e a criação de culturas de paz, justiça, cura da Terra e de todos os seres vivos.

Inspira-se na frase de Mahatma Gandhi: Temos que ser a transformação que queremos no mundo.

 

 

AVISO - Esta mensagem contém informação para uso exclusivo do nome endereçado acima. Ela pode ser reservada, confidencial ou altamente confidencial. Se você recebeu esta mensagem por engano, comunicamos que a disseminação, distribuição, cópia, revisão ou outro uso desta mensagem, incluindo anexos, é proibida. Favor avisar-nos retornando este e-mail e destruindo esta mensagem, incluindo anexos.

NOTICE - This message is intended only for the use of the addressee(s) named herein. It may be reserved, confidential or highly confidential. Unauthorized review, dissemination, distribution, copying or other use of this message, including all attachments, is prohibited and may be unlawful. If you have received this message in error, please notify us immediately by return e-mail and destroy this message and all copies, including attachments.